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A prática milenar com aves de rapina, como falcões e gaviões, ajuda a prevenir acidentes em momentos delicados do voo: decolagem e pouso

Por conta das técnicas de adestramento das aves de rapina, como por exemplo, os falcões e os gaviões, eles podem fazer o monitoramento das pistas dos aeroportos com o objetivo de diminuir o risco aviário, que nada mais é do que a colisão entre pássaros e aviões.

Pode parecer um pouco estranho e até uma prática pouco usada, mas os aeroportos mais movimentados do mundo, como o JFK (Nova York), Portela (Lisboa) e Barajas (Madri) usam os falcões para prevenir acidentes.

No nosso país, essa prática já foi vista nos aeroportos da Pampulha e Confins (Belo Horizonte), Galeão (Rio de Janeiro), Salgado Filho (Porto Alegre), Eurico de Aguiar Salles (Vitória), Lauro Carneiro de Loyola (Joinville) e Val-de-Cans/Júlio Cezar Ribeiro (Belém).

“A utilização da falcoaria pode reduzir de 30% a 40% a probabilidade de colisões entre pássaros e aeronaves. É uma técnica que tem a importância cada vez mais reconhecida e é cada vez mais adotada por todo o mundo”, disse o falcoeiro e biólogo Carlos Eduardo Carvalho, pioneiro da falcoaria para a segurança aérea no Brasil.

“O entorno das pistas é muito atraente, especialmente em aeroportos dentro de centros urbanos, porque os pássaros veem a grama como um alimento de fácil acesso. A presença dos falcões nesse ambiente dispersa as aves, pois o animal, naturalmente, foge do seu predador. Eficiência de Falcoaria em Controle e Manejo de Fauna no Brasil”, pontuou Carvalho.

Risco

De acordo com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), apenas em 2014 foram registradas 1.495 colisões e 559 quase colisões entre pássaros e aviões no nosso país.

Na visão de João Paulo Santos, presidente da Associação Brasileira de Falcoeiros e Preservação de Aves de Rapina (ABFPAR), um ponto mais relevante do que a grande quantidade de acidentes é o momento em que eles aconteceram durante o voo.

“Temos que ter em mente que a falcoaria age em momentos fundamentais da atividade aeronáutica, que são justamente a decolagem e o pouso das aeronaves. São momentos em que o avião está em seu limite operacional, e qualquer colisão de uma ave em uma turbina pode causar um acidente grave”, disse Santos.

Técnica

A técnica da falcoaria tem seus primeiros registros no ano de 1.400 a.C., na Mesopotâmia. No entanto, há pessoas que defendem que os falcões e gaviões já eram usados para caça em 10.000 a.C., durante o período neolítico.

Essa prática é tratada, historicamente, como esporte, arte e manifestação cultural. Mas ela também é usada com frequência como um instrumento para a preservação do meio ambiente.

“Os falcoeiros estão ligados a diversos projetos de recuperação e reabilitação de aves de rapina em todo o mundo. A recuperação do Falcão Peregrino (Falco peregrinus), nos EUA, ou do Açor (Accipiter gentilis), no Reino Unido, só foi possível graças a falcoeiros e à aplicação de técnicas desenvolvidas no âmbito da falcoaria. Essas técnicas também são usadas hoje para ajudar no controle de espécies problemáticas para o homem de uma forma natural e biológica, mantendo uma harmonia perfeita com a natureza e com uma eficácia muito grande quando comparada a métodos mais artificiais”, disse Pedro Afonso, presidente da Associação Portuguesa de Falcoaria.

No Brasil, a ABFPAR tem feito atividades de educação ambiental com a população, principalmente nas escolas pública. Nessas atividades, ela explica a importância dos falcões e gaviões para o meio ambiente.

“Demonstramos conceitos básicos da biologia de uma ave de rapina e a sua respectiva importância no ecossistema. Esse trabalho é muito importante, pois além de explicar ao público leigo como funciona a falcoaria, promove a conscientização da sociedade sobre a ação negativa do tráfico de animais silvestres”, ressaltou Santos.

Cuidados

Além da preocupação com o meio ambiente, ela também se estende até o uso de falcões nos aeroportos. Até porque, nesses lugares é feito um trabalho de preservação dos pássaros caçados.

“Depois que o falcão faz a captura de uma ave nós sempre tentamos resgatá-la com vida. Claro que isso não é possível em 100% dos casos, mas quando conseguimos encaminhamos esses animais para departamentos que vão tratá-los e devolvê-los à natureza”, explicou Carvalho.

Na opinião do falcoeiro, é impossível acabar com as colisões entre pássaros e aviões, mas é possível acabar com as colisões que possam colocar vidas em risco.

“Não adiantaria de nada termos apenas duas ou três colisões num ano, mas um avião cair em decorrência delas. Isso seria um problema gravíssimo, obviamente. Podemos ter 100 colisões de beija-flores com 100 aeronaves, o que não podemos ter é a colisão de 100 beija-flores com uma aeronave, porque isso a derrubaria”, concluiu ele.

Fonte: Mamede Filho de Lisboa

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